O Gallo escuro e a boçalidade publicitária
João Delgado
A polémica sobre o anúncio do azeite Gallo no Brasil estourou agora devido à apresentação de uma queixa no Conar (Conselho de Auto-regulamentação Publicitária *) , mas desde que os anúncios foram divulgados, em 2011, se percebeu tratar-se de humor estúpido, no mínimo.
Não por acaso a agência promotora, a AlmapBBDO, veio justificar-se com "bom humor e uso de metáforas para falar da protecção".
A boçalidade da metáfora retrata o pior do Brasil, em que os ricos vivem em segurança porque têm escuros a protegê-los.
Claro que muita justificação alternativa surgirá agora, tendo já defendido um líder negro que a campanha se refere ao uniforme escuro dos seguranças privados, e não à sua cor da pele. Era o que já dizia a BBDO: "Texto faz metáfora com segurança por vidro estar "vestido de preto"" .
Sendo verdade que o vidro é escuro, os seguranças também e (dizem) até os seus uniformes na versão brasileira, é também verdade que este anúncio recorre à esperteza saloia, que é aliás comum na publicidade com as piadinhas à "gaja boa", ao "maricas", ao "gordinho"...
Podemos viver numa sociedade assim e sermos felizes à mesma. Mas também podemos sinalizar quem gosta de fazer humor reproduzindo e ampliando discriminações sociais. Pouco me importa se os escuros eram pessoas ou roupas. Por mim o Gallo continuará na prateleira. Sempre preferi o Oliveira da Serra.

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